Charlie e a fantástica fábrica de chocolate – o Musical

A volta do Teatro Musical nesta última quinta-feira (16/09) é um feito a se aplaudir de pé. Primeiro porque a pandemia arrasou o setor cultural e deixou o teatro vazio. Os que sobreviveram e que podem voltar à ativa, dá para contar nos dedos. A casa do gênero musical, localizado na Av. Brigadeiro Luiz Antônio e agora batizado de Teatro Renault vai abrir as portas para o público acompanhar e conhecer os Charlie e Willy Wonka brasileiros, até 19 de dezembro de 2021. É um feito, que vai testar o poder comercial do teatro musical e sua relação com o público, já que para se manter uma produção de 250 pessoas, precisa-se de muito fôlego financeiro, convenhamos. A peça que deveria ter estreado há 1 ano e meio atrás, mais precisamente no dia 19/03/2020 é o pontapé inicial de grandes produções nessa retomada e torcemos para que não seja a última.

Realizado pelo Instituto Artium de Cultura, com direção de John Stefaniuk (também responsável pela versão brasileira de Billy Elliot), a produção, que deveria ter estreado no Teatro Alfa, levou para o Renault em pouco mais de 1 mês, uma estrutura pensada para outro espaço. Empecilhos em função da pandemia impediram entre outras coisas que o design de luz estivesse presente, tendo que acompanhar todos os ensaios on line. Troca de elenco infantil, mudança de voz, também foram questões enfrentadas pela produção. Vale ressaltar que na coletiva de imprensa realizada à tarde, o presidente do Instituto, Carlos Cavalcanti, assumiu o risco da empreitada de estrear agora – o trabalho era previsto para voltar somente em 2022 – pois acredita que é seu papel apoiar e participar da retomada de eventos e produções da cidade de São Paulo, e assumiu que produtor também sofre. Não duvidamos.

A estreia de uma peça que tem como temática central o poder da imaginação e a esperança parece “cair como uma luva” para os tempos em que vivemos. Charlie é um garoto vivendo numa situação paupérrima junto com sua mãe, avós e avôs e que sonha em poder conhecer a Fantástica Fábrica de Chocolate Wonka. Humilde e honesto o pequeno tem a capacidade de fabular sua realidade e um poder de resiliência invejável –  exemplos bem-vindos em tempos tão sombrios. A história de Roald Dahl publicada pela primeira vez em 1964 e adaptada para o cinema em 1971 é uma história moralista, onde crianças más e/ou que fogem às regras pré estabelecidas são punidas, além de terem comportamentos duvidosos que as tornam vaidosas, gulosas e arrogantes. A salva guarda de uma personalidade fora das normas é permitido apenas ao comportamento amoral de Willy, o dono da tal fábrica.

Interpretado por Cleto Baccic, o protagonista da história deixa a desejar no que tem de mais rico e inquietante – portanto passível de uma problematização – o sadismo implícito em suas ações. Baccic compõe seu Willy Wonka mais próximo de um “bonachão” e essa escolha por não carregar na interpretação, faz com que seu personagem careça de nuances que o torne mais interessante. Não é clownesco e não é engraçado. O pior: não é inquietante. Ou seja, é um personagem sem complexidade. É como se o personagem carecesse de tonos, de personalidade. O ator é um experiente profissional do segmento de musicais e perde a chance de oferecer uma composição a contento com – digamos – os brios e a malandragem brasileira – por exemplo. Não é claro qual a visão do ator para o mítico personagem. Digo isso pois, a montagem brasileira não é uma réplica da montagem original, o que permitiu que os profissionais tivessem liberdade para “ler” a história e oferecer ao público sua versão dos fatos.

História essa que também é levada ao palco do Teatro Renault com uma adaptação duvidosa que deixa de fora um fator importante para o entendimento da obra como um todo. Assim como os felizardos colegas que também acharam o bilhete premiado, que dá direito a conhecerem as instalações da fábrica, Charlie também infringe as regras e isso não fica claro na montagem. Ou melhor, nem é citado. Por sinal, essa passagem da peça – quando vemos Willy e Vovô Joe – no fundo do mar, é ruim, pois a cena se torna ilustrativa e não se justifica. Ela não é explicada. Se você não tem o repertório da história e não é um público atento a narrativa, passa batido essa “mancada” na adaptação de Mariana Elisabetsky – outra profissional experimente, inclusive com o público infantil. Já que o fato de Charlie também ser passível de erro e se mostrar arrependido no final, faz toda a diferença para que Willy o presenteie com a fábrica. Mas não, a montagem “chapa” o garoto como um coitado pobrezinho, que se solidariza com os coleguinhas, se tornando merecedor da bênção de Wonka, sem muitas explicações. É pouco. Essa escolha da direção aliado a falta de sadismo em Wonka, rouba a graça da história, que tem em sua dualidade de questões morais seu grande trunfo. Ou seja, temos uma montagem festiva e bem executada, porém rasa de contexto.

Mesmo com um orçamento acima do normal para uma peça de teatro (de outro gênero), os musicais costumam arrecadar alguns milhões para poder entrar em cena. Guardada as devidas proporções, obviamente que a cenografia – a cargo de Michael Carnahan – é o ponto que mais suscitará curiosidade, já que o público – habituado ao poder imagético da sétima arte – espera que o cenário surpreenda com sua excentricidade e explosão de cores. Há boas resoluções para o palco, e opções incompreensíveis como o espaço da sala de chocolates, que “enlouquece” Augustus, que não resiste e se atira no rio doce. Mesmo que se trate de uma peça onde o lúdico é instrumento essencial para se acompanhar a história, existem imagens que não deveriam ser supridas da imaginação do público. Muiro pelo contrário, deveria pro-vo-car o público. A montagem frustra ao não investir na instigante possibilidade de atiçar a gula do público. Afinal, estamos numa fábrica de… cho-co-la-tes.

As opções duvidosas da versão brasileira, não tira brilho da montagem. O elenco é potente e interessante. Personagens como as das crianças Veruca, Augustus e Violet (uma boa sacada na adaptação da retratação dessa personagem, no que tange questões de raça e cultura pop), da repórter Cherry, do vovô Joe e das mães. Todos imprimem energia na montagem e nos entusiasmam. Ou seja, se você não conhecer a história e nem tiver conhecimento e apego nas versões cinematográficas, será mais fácil se deixar levar e se divertir. Vale ressaltar que os adereços e figurinos são outro trunfo para que a peça possa ser apresentada de forma satisfatória no nosso contexto. A relação de Veruca com os esquilos e seu bizarro desfecho é um bom exemplo de como a peça pode resvalar intencionalmente no politicamente incorreto e em assuntos delicados, sem se ater ao debate, suavizando – mas não o suprimindo – de forma interessante com resoluções lúdicas. 

Charlie e a fantástica fábrica de chocolate – o Musical, entretém. Mira no público infantil, deve descontentar os adultos afeitos a outras referências da história, tem um ambiente instagramavel no hall do teatro e é nosso primeiro espetáculo musical. Uma tentativa corajosa para que o paulistano tome gosto pelo teatro novamente e fomente o setor das artes cênicas. Para uma história onde se prega a esperança e a boa fé, seu contexto, a tal “moral da história” é outro trunfo para desarmar os conservadores de plantão, afeitos a “pixar” as artes cênicas como um território apenas transgressor e de ideias esquerdistas. Temos aí um Willy para nos mostrar que-não-é-bem-assim. Seguir acreditando nos sonhos, valorizando a solidariedade e empatia familiar e ser um “bom garoto”, talvez não faça das crianças presentes na plateia, merecedoras de herdarem um império, mas com certeza garantirá muitas guloseimas caras.  

Rodolfo Lima

Serviço:

Teatro Renault, Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411, Bela Vista.

Sex., 20h30. Sáb., 15h30 e 20h30. Dom., 14h30 e 19h30.

R$ 50,00 a R$ 310,00. Até 19/12/21

ticketsforfun.com.br.  

Classificação etária livre. Menores de 12 anos, acompanhado dos responsáveis.

 *Apresentação da carteirinha de vacinação é OBRIGATÓRIA #vacine-se

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