O silêncio depois da chuva

Famílias destruídas rendem boas histórias. Seja no cinema ou no teatro, ver os membros de uma mesma família em frangalhos e se digladiando, proporciona momentos fortes, emocionantes e (às vezes) impactantes. Não é o caso de “O silêncio depois da chuva”. Embora interessante se pensarmos na dramaturgia e no cenário, a direção de Leonardo Medeiros fica aquém do texto de Gustavo Colombini.

Em cena, dois irmãos e a progenitora se debatendo numa casa “seca” e opaca, vazia e destituída de sentido. De todas as peças que ocuparam o mezanino do Centro Cultural FIESP, o cenário de Marisa Bentivegna é o mais interessante. Ela incorpora as formas retas e acinzentadas do local ao seu cenário – a casa da família – e faz do espaço quase uma instalação. O único senão é o recurso do chão da casa ser removido por um dos filhos, exatamente igual ao que acontece com o cenário de Daniela Thomaz para a peça “Pterodátilos”. Essa comparação enfraquece a idéia de Marisa. E a água se torna um elemento supérfluo, não seria mais interessante que ela surgisse das paredes? Do teto?

Os figurinos de João Pimenta procuram tornar mais denso e pesado o universo daquelas pessoas. Há certo ar de ostentação no vestido usado por Gisela Millás. E as roupas dos irmãos soam modernosas demais, para uma família decadente e pouco afeita a aparência exterior, já que todos os olhos estão voltados ao mundo interior de cada um. Uma boa idéia – no caso da escolha dos panos – acaba pecando pelo excesso. Com alguns escorregões em cena do ator Fabricio Licursi é possível imaginar que há algo em desalinho entre figurinos e cenário.

O texto de Colombini é provocativo, poético e beira a complexidade. Não é fácil para o espectador ir juntando os nós soltos e amarrando as singularidades de cada personagem. Se você se pegar prestando atenção apenas num personagem e nas suas lamentações, ok. Mas não tente ver coerência nas singularidades individuais.  É como se o público fosse guiado pela própria subjetividade e o grande achado do texto de Colombini e oferecer esse quebra cabeça cênico. Apoiado com a bela música de Marcelo Pellegrini, a montagem atinge momentos tocantes.

A direção do recém cultuado Leonardo Moreira fica aquém. Os atores estão em registros diferentes e em alguns momentos não parecem compor o mesmo organismo. Gisela soa maluquete e aérea, Fabricio parece estar um tom acima, sua figura esquia e magrela e arqueada parece à caricatura de um bicho enjaulado e Leonardo – Devitto o ator alternante, em substituição a Thiago Amaral – parece mais sóbrio, e sua interpretação tem tons realistas que não agrega ao clima compostos pelos colegas de cena. Talvez resultado da direção de atores a quatro mãos, a cargo de Luciana Paes e Aline Filócomo.

Moreira torna barulhento o conflito da família, borra em alguns momentos a cena de forma a dificulta que o espectador seja pego pela sensibilidade e peca pelos excessos. Nem tudo precisa ser tão mirabolantemente “moderninho” para ser pertinente. Uma história tão simples repleta de frases de impacto perde espaço nas marcações do diretor.

“O nosso horizonte é um abismo”. Uma das frases ditas pelo personagem pontua a opinião do dramaturgo. “Ter abandonado a família” ou “ ter ido embora de casa” são ações diferentes do pai, algo bem similar na ação, ganha um questionamento inquietante de Colombini. Qual a diferença? O que um significa em função do outro? O drama do pai que vaio embora e larga mulher e filho, sem maiores explicações ganha um retrato pertinente e triste, mas tão contundente e comum, que faz com que a peça de Gustavo mereça um lugar considerado na nova dramaturgia paulista.

Rodolfo Lima

Uma resposta para “O silêncio depois da chuva

  1. antonio nahud júnior

    Belo blog!
    Cumprimentos cinéfilos

    O Falcão Maltês

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