Brian ou Brenda?

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A questão mais urgente e inflamada do momento em relação aos direitos dos seres humanos recai sobre as questões de gênero que primeiro dividiu o mundo de forma binária: homens e mulheres, e depois, sadicamente, excluiu e empurra pra margem tudo o que não se enquadra em seres XX e XY, ou seja, o mundo realmente está em colapso e o destino é incerto. Uma montagem como Brian ou Brenda? é antes de tudo um convite a empatia.

Com direção de Yara de Novaes e Carlos Gradim, a montagem alavancada graças ao Prêmio Cleyde Yáconis, da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo mistura com muito sucesso didatismo e teatro, criando resoluções cênicas, que provoca e sensibiliza a platéia. É um feito, mesmo que a peça seja literalmente uma bandeira hasteada em prol do que é considerado diferente. A produção levou tão ao pé da letra a pluraridade de corpos, gêneros, sexualidade e origens, que escalou para o elenco artistas de diversas origens: Jimmy Wong (Oriental), Paulo Campos (Negro), Kay Sara (Indígena), Marcella Maia (Mulher Trans) e Giovanni Venturini (baixa estatura), entre outros.

Diante de tanta singularidade o sistema coringa proposto pelo dramaturgo Augusto Boal (16/03/31- 02/05/09) foi um recurso pontual e assertivo da direção para que todos pudessem vivenciar diferentes papeis e assim, engrandecer o jogo cênico e ao mesmo tempo propor que as pessoas revejam suas questões sobre os gêneros estáticos. Se alguns podem ser tudo o que quiserem, porque outros não? É um convite a reflexão, mesmo que a peça “legende” isso a todo instante, inclusive com as (desnecessárias) músicas de “Secos e Molhados” – um exemplo do excesso, exposto em cena.

A peça é baseada na trágica história da Família Reimer, que viram todos os seus sonhos começarem a emergir num poço sem fundo ao aceitarem que, após uma operação de uma fimose mal sucedida, num dos gêmeos masculinos (Brian e Bruce) recém nascidos, os pais aceitassem,criar um dos filhos como uma garota, seguindo as orientações do DR. John Money que defendia que era possível criar uma criança de acordo com um gênero imposto pela genitália e ou por escolhas alheias as questões subjetivas e emocionais, e porque não espirituais. O experimento fracassa, as crianças são constantemente violentadas em suas singularidades e o final não poderia ser mais catastrófico com o desmantelamento dos integrantes dessa família.

A peça então surge como um alerta para os espectadores que acreditam que a ideologia de gênero existe e que ela precisa ser combatida. O caso exposto em cena revela sem deixar dúvidas ao público que o certo seria deixar a criança crescer e assim verificar em qual gênero ela se enquadraria, independente dos sexo biológico. É simples, mas muitas pessoas insistem em resistir a essa possibilidade libertária de criação de filhos, tantos crianças intersexo ( que nasçam com características biológicas de ambos os sexos), como crianças fisicamente normais. Que o feminino e o masculino são construções histórico -culturais e que essa “educação” é matriz de diversas fobias, machismo e intolerância, já é sabido. A pergunta que não quer calar é: Por que não nos tornamos mais tolerantes? Por que insistimos em criar filhos de forma a aprisionar suas singularidades? Por que se aceita o machismo como referência de atitudes? São muitos os porquês.

O texto de Franz Keppler ao mesclar fatos reais e ficcionais, recai sobre tais questões sem pesar a mão no panfletarismo, abrindo brechas para que a direção potencialize o que não pode ser respondido, apenas sentido, ou no caso do teatro, presenciado. Ao nos tornarmos cúmplice de tais atrocidades revemos nossos conceitos e mudamos as atitudes, certo? É o que se espera, mesmo que isso seja uma utopia.

A montagem tem uma estética colorida, jovem e em ritmo acelerado, para quem sabe atingir principalmente o público jovem, que fomentam a diferença e futuramente poderão interferir em prol de corpos plurais e na sexualidade fluida. Mesmo que os figurinos de Cassio Brasil parecem exagerados, em seus detalhes de cores e estampas, criando ainda mais camadas de leituras para os corpos em cena, o resultado acaba entusiasmando, mesmo que pareça um verniz a mais no todo.

Brian ou Brenda? é um necessário convite a reflexão, sem abrir mão do entretenimento e da militância. É realmente um acerto o resultado, mesmo que o diálogo diretamente sobre essas questões ainda pareça um imbróglio a ser resolvido, explico: na sessão do dia 19 de outubro, aconteceu um bate papo pós apresentação. Teatro lotado, final de peça metade do público vai embora, a metade que fica faz perguntas aos artistas – revelando a dificuldade de entendimento – que necessitam explicar didaticamente (não que a peça não o seja, veja bem) sobre os assuntos abordados. Nesse diálogo o ator Augusto Madeira faz duas colocações extremamente duvidosas.

A primeira diz respeito ao dialeto usado por Kay, mulher indígena, que em parte do texto diz suas falas em sua língua materna. Alguém do público pergunta qual seria esse idioma, a atriz responde e o ator completa:

ela pode dizer o que quiser né, a gente não entende nada.

No segundo caso, o ator tentou defender as ideias do médico ao sugerir que ele poderia acreditar piamente em suas convicções e não necessariamente fazer mal aos pacientes. Veja bem, estamos falando de um médico que tinha uma teoria e que tentou a fórceps colocá-la em prática. No momento mais cruel do que é contado em cena, o médico obriga o irmão a fazer sexo com a irmã(que se sente como um menino, é bom relembrar, para quem não viu a peça), para que ela saiba como deve ser e se comportar um corpo feminino. A minha pergunta é: como se defende uma pessoa assim?

A amiga que me acompanhava diz: tem que ser o branco cisgênero a falar merda.

Levantamos na hora, em protesto as colocações tão descabidas e indelicadas. Pois não se pode corroborar com a perpetuação das ações de tal médico, que mesmo se deparando com o fracasso de suas teorias, permaneceu impondo violências aos irmãos, alheio a todas as consequências oriundas dessas ações.

Diante do relato do ator que não teve empatia e respeito com o idioma da mulher ao lado e se compadece com os erros do médico, percebe-se que ainda temos muito trabalho a ser feito, principalmente quando a realidade se sobrepõem as questões ficcionais de forma tão capciosa.

Rodolfo Lima

(a peça segue em cartaz no Viga Espaço Cênico de 25 de outubro a 27 de novembro de 2019, de sexta a domingo)

 

 

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